Tem dias que você acorda e nem imagina que a vida vai estar lá toda pimposa te esperando com mil novidades e aventuras.
Sexta foi assim. Acordei super gripada, com o corpo quebrado, a garganta inflamada, o nariz escorrendo, com falta de ar, tosse, dor de cabeça e aquela coisa toda. Não tinha dormido direito à noite, estava morta, mas, sabe-se lá por que, eu resolvi ir trabalhar mesmo assim.
Resultado, cheguei ao trabalho mal só de subir o elevador.
Virei pro meu semi-chefe ao lado e disse:
- Fulano, você sabe se aqui no prédio tem ambulatório?
- Boa pergunta! Eu, que sou o maior hipocondríaco da empresa, nunca pensei nisso! Peraí que eu vou descobrir já! Vou ligar na recepção! Oi, recepcionista! Você sabe se tem ambulatório aqui no prédio? Humm... sei... Tá... Obrigado.
- Tem?
- Num tem, mas se quiser eles mandam um bombeiro.
- Rá rá, aaacho que não.
E fui botar a vida em dia.
Bom, gente... O que posso dizer? Deu dois segundos chegou um bombeiro, um segurança (sim!!! o
mes-mo daqueles textos, lembram?!?) e uma cadeira de rodas na minha mesa:
- ABOBRINHAAAA! Tá tudooo beeeem??? - disse o esbaforido segurança.
- Ãnn??? - *olhos mestiços arregalados e piscantes*
- Você não está passando mal??? - perguntou o bombeiro recuperando o ar apoiado na cadeira de rodas. Na minha cadeira de rodas.
- Eu? Quê???
Oi? É comigo? Que isso? Da onde? Quem é você? O que está fazendo aqui me assustando desse jeito? Tô alucinando, gente!- Ué - falou o coitado do bombeiro - A recepção informou que a senhora estava passando mal, então eu vim correndo.
- Foi mesmo. Ele subiu os oito andares de escada carregando a cadeira - fez questão de explicar, sem graça, o segurança.
(Carregando. A. Cadeira. De rodas.)
(Pausa)
- Então, gente... Tá tudo bem... Na verdade eu só queria saber se existia um ambulatório aqui no prédio... pra pedir uma aspirina...
- Aaaaaaaaahhhhhhhh... A recepcionista errou, então.
- É, talvez... Mas, poxa, olha, miiiil desculpas por fazer vocês subirem até aqui desse jeito... Sério. Que vergonha... Desculpa. Juro... muito obrigada por terem vindo.
- Mas valeu a pena pra gente ver a Abobrinha vermelha - emendou meu amado semi-chefe.
E todos os funcionários do andar neste momento estão olhando pra minha cara se perguntando: será que ela vai morrer??? ela tá meio vermelha mesmo... E então eu tento falar alto:
- Tá tudo bem, pessoal. Eu só queria saber se tinha uma aspirina. Eles se confundiram!
Confesso que nessa hora a voz não saiu direito e talvez o povo não tenha ouvido/entendido nada mesmo.
Aí, tá... Voltemos ao trabalho.
Gripada, corpo quebrado, garganta inflamada, nariz escorrendo, falta de ar, tosse, dor de cabeça, noite mal dormida. Sem aspirina. Sem ambulatório. E roxa, alternando calores e frio.
Toca o celular.
- Oi mãe... tô melhorando... sim, acho que estou começando a ficar com febre... não, não fui ao hospital... não, não tem médico na empresa... não, não posso faltar... já, já tô no trabalho... não, não vou ao hospital agora, vou depois do trabalho, tá? beijotchau.
Desliga o celular, sorri pro chefe novo (chefe mesmo) primeiro-dia-na-empresa, volta ao trabalho.
Toca o celular.
- Oi mãe... Quê??? Eu já disse que não tem médico no trabalho e que eu vou até o hospital depois do trabalho! Eu já disse... eu vou... eu vou... euuuu voooooou... Tá? Eu vouuuu....
Desliga o celular, se afunda na cadeira, volta ao trabalho.
Toca o celular.
- Oi irmã... tô, tô gripada... sim, estou no trabalho... não, não vou ao hospital agora... sim, vou ao hospital depois... prometo... fala pra mamãe que eu vou... eu juro... fala pra mamãe parar de me ligar... eu vou... depois!
Desliga o celular e se mata.
Toca o celular.
- Oi pai... tô, tô gripada... não, não fui ao hospital... eu vou... de-pois! porque eu tô no trabalho. sim, eu tô no trabalho... (não, na verdade eu tô em casa na maior fazendo charme só pra ver quantas vezes vocês vão me ligar e pedir pra eu ir até o hospital). Fala pra mamãe que eu vou!
Desliga, mete a cabeça no teclado.
Toca o celular.
- Oi mãe. Mãe!!! Eu já disse que vou pro hospital DEPOIIISSSSS DO TRABALHOOOOO!!!!
Tum tum tum.
Toca. Juro. O celular.
- Oi irmã......... sim, eu sei que a mamãe está preocupada... eu juroooooo que vou até o hospital depois do trabalho... depois. o quê??? quem morreu de gripe suína em dois dias? ficou em coma? jura? morreu mesmo? que horror! jura??? que medo. tá bom, eu vou! você contou isso pra mamãe????? não, ufa.
Enfim, eu volto ao trabalho. Achando que vou morrer de gripe suína cer-te-za.
Consegui trabalhar por quase oito horas, olha só que heroína. Mas, quando deu umas oito da noite, a gripe e a paranoia subiram à cabeça e eu liguei pra minha irmã pra ela, enfim, me levar, sim!, pro hospital.
No meio do caminho... toca o telefone da minha irmã. Era o Felipe, pra falar comigo. A gente conversa, eu devolvo o telefone pra minha irmã e o que ela faz? Coloca na boca!!! Na maior pose, "óóó, que caminho eu vou fazer"?
- Juliana!!! Tira o telefone da boca! - eu berro.
- Aaaaaaaaaaaaa! *cospe cospe* AAAAAAAA! Eu peguei gripe!!!! AAAAAA! Eu peguei gripeeee!!!! AAAAAA! Eu vou morreeeeer!!!! Aaaaaaaaa!! AAAAAA!
- Dirige! Dirige!!!
Enfim, chegamos ao mal.di.to hospital.
Corro até a recepção e tropeço numa placa: Qualquer sintoma de gripe --> 1o. andar.
Óbvio, né? Óbvio que a recepção do primeiro andar estava lotada e a fila para atendimento era de duas horas. Óbvio que todo mundo estava de máscara e a minha irmã quase teve um acesso de riso quando viu. E óbvio que eu espirrei e a mulher que estava ao meu lado mudou de lugar.
Nisso, o Felipe chegou e eu mandei a minha irmã embora. Mas pensa que ela quis ir? Não... queria ficar vendo a novela arebaba, porque uma mulher estava estapeando a outra, e queria ficar paquerando o menino ao lado, que tava com 40 graus de febre e cheio de influenza, só porque ele ficou bonitinho de máscara.
Oi? Quem é que ia morrer de gripe??? Hein, hein?
(Nossa, essa história ficou um pouco longa.)
Resumindo... Saí do hospital quase cinco horas depois, C.I.N.C.O. (viu, mãe?), pior do que tinha entrado, de madrugada, sem tamiflu, morrendo de fome e, provavelmente, com um novo vírus no organismo.
Só me restou acabar a noite num x-salada cheio de maionese que eu fiz o Felipe parar pra comprar.
No dia seguinte, eu tive dores esfaqueantes no estômago... E eu achei que era por causa do remédio que a médica lá do pronto-socorro me deu... Mas, se pá, o sanduíche + maionese + bactérias + vírus + madrugada pode ter contribuído, né?
Ou então... o segurança do prédio está tentando me envenenar escondido e tudo isso faz parte daquele antigo plano...
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